Largo de São Domingos

Mesmo à entrada da Baixa lisboeta encontramos o Largo de São Domingos, baptizado dessa forma por ali se encontrar a Igreja com o mesmo nome.

Largo de São Domingos
Largo de São Domingos

Actualmente é um espaço que faz a fronteira da zona multi-étnica da Praça Martim Moniz com o lado sofisticado e turístico do Chiado. É frequente depararmo-nos com esta mistura às portas da famosa “Ginjinha” que ali se encontra instalada.

Largo de São Domingos - Ginjinha
Ginjinha

Contudo, é curioso observar que a actual convivência multi-cultural que hoje ali encontramos espelha precisamente o inverso da história de brutal intolerância que marcou aquele Largo.

Foi em 1506. Era rei D. Manuel I e Portugal vivia o inicio do período de apogeu da sua História em plena época de Descobrimentos. Apesar deste período de riqueza e de ascensão, a sociedade lisboeta de então vivia um momento altamente preocupante motivado pela seca, fome e com uma série de pestes a assolarem sucessivamente a cidade.

Por outro lado, Portugal tinha acolhido anos antes uma enorme comunidade Judaica expulsa de Castela. Apesar de terem sido acolhidos no Reino, foram forçados a abraçar a religião católica para evitar que fossem mortos e humilhados em praça pública, tornando-se assim em “cristãos-novos”.

A 19 de Abril de 1506, quando os fiéis celebravam uma missa na Igreja de São Domingos pedindo a Deus que terminasse este período de fome, seca e peste, uma imagem de Jesus Cristo no interior da Igreja brilhou intensamente. Milagre – por certo! Era um sinal divino, uma resposta de Deus que iria pôr fim às dificuldades vividas pelos seus fiéis. Por momentos viveu-se um clima de enorme alegria. Até que no meio da multidão na Igreja levantou-se a voz de alguém dizendo que aquele brilho mais não era do que o reflexo do Sol.

Blasfémia! Quem ousa reproduzir uma heresia tamanha? Identificou-se rapidamente quem proferiu tal frase e, coincidência ou não, tratava-se de um “cristão-novo”. Rapidamente tudo se descontrolou.

Fruto do momento de dificuldade que se vivia e, claramente, por uma raiva até aqui contida por toda esta comunidade judaica que tinha invadido Lisboa, a população começou por espancar até à morte o cristão-novo que originou o tal comentário. A partir daqui foi o descalabro. Todos os cristãos-novos que estavam naquela Igreja e que não conseguiram fugir foram espancados e mortos de imediato. Não satisfeita, a população arrancou pela cidade de Lisboa e invadiu casas, identificando todos os judeus e cristãos-novos da cidade. Foram queimados, mortos, muitos nas suas próprias casas e outros em fogueiras públicas que se organizaram para o efeito.

O massacre durou 3 dias (inflamado em parte por frades que prometiam absolvição dos pecados a quem identificasse e matasse os judeus da cidade) até se conseguir impor a calma. Resta dizer que para além de judeus e “cristãos-novos”, outros foram mortos por ódios pessoais aproveitando a desordem e o rebuliço que se faziam sentir.

Ao todo, em apenas 3 dias, perto de 3000 pessoas foram massacradas sem motivo mas por ódios e invejas infundados e por uma iliteracia profunda de um Portugal pequeno que se estava a tornar enorme.

Hoje, esta história semi-esquecida, tem no Largo de São Domingos um marco que o assinala sem grande protagonismo. Nas paredes está inscrita a frase “Lisboa – Cidade da Tolerância” resta saber se para esconder a verdade do que ali se passou se para congratular a evolução de mentalidades que entretanto e, apesar de tudo, se verificou.

Largo de São Domingos (1903)
Largo de São Domingos (1903)

Podem acompanhar tudo aqui:
https://filipemiguel.blog

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