Rebuçados Dr. Bayard

Dr. Bayard: o nome é francês, os rebuçados são da Amadora

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Os peitorais mais famosos do país são rebuçados e levam o carimbo da Dr. Bayard. Entrámos na fábrica da marca que chega a produzir 800 mil por dia.

Reportagem na Fábrica Dr. Bayard.

Esquecendo os atributos de Cristiano Ronaldo, os peitorais mais famosos do país são rebuçados e levam o carimbo da Dr. Bayard. Entrámos na fábrica da marca que chega a produzir 800 mil por dia.

As imobiliárias e os guias turísticos são mestres em vender as maravilhas de certas ruas, mas não é preciso ter uma agência para perceber a originalidade da Gomes Freire: cheira a mentol.

Os alunos da escola profissional vizinha, Gustave Eiffel, dizem o mesmo. Naquela zona residencial da Amadora cheira permanentemente a rebuçados, e a razão está escondida no número 10.

O que parece ser apenas mais uma garagem é na verdade a porta de entrada da fábrica da Dr. Bayard, a marca que há várias gerações é a receita de bolso de muitos portugueses para acabar com a tosse.

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Quem dá as boas vindas, aliás, é a única pessoa que parece sofrer da garganta nas imediações: o homem desenhado nas embalagens de rebuçados da marca, em tons de azul, branco e vermelho, e que está ampliado e emoldurado à entrada, por cima dos cacifos dos trabalhadores.

Para lá da porta-que-não-é-uma-garagem não estão carros mas sim máquinas que fazem um barulho ensurdecedor e transformam uma espécie de caldo de mel, açúcar, glucose e plantas medicinais em milhares de rebuçados que vão passando em tapetes rolantes a toda a velocidade.

Num dia bom podem-se produzir até 800 mil dos retângulos que prometem “não sofra mais, experimente os rebuçados peitorais”. Tudo somado dá 600 toneladas de rebuçados por ano. Mas nem sempre foi assim.

Uma receita milagrosa entregue numa lata

Há 67 anos, quando a Dr. Bayard foi criada, a maquinaria envolvida no fabrico dos rebuçados reduzia-se praticamente a uma colher de pau e um tacho. Por trás dos inovadores utensílios de cozinha estavam Álvaro Matias e a mulher, ele de Almeida, uma das aldeias históricas de Portugal, ela de Vilar Formoso.

Reportagem na Fábrica Dr. Bayard.

Ambos tinham vindo para Lisboa no final dos anos 30, tentar uma vida melhor. Vieram à procura de novas oportunidades e acabaram por encontrar um negócio.

Álvaro Matias trabalhava numa mercearia da capital quando conheceu um médico que tinha saído de França para fugir à Segunda Guerra. Com o tempo, os dois homens acabaram por se tornar amigos e partilhar o que melhor sabiam: o português servia de guia turístico para o médico e a mulher, enquanto o casal lhe dava aulas de francês em casa, depois do trabalho.

Mas a guerra mundial ia longa e o refugiado começou a ter cada vez mais dificuldades em adquirir os produtos de que precisava na mercearia. Álvaro passou a ajudá-lo, facilitando-lhe o acesso aos bens de primeira necessidade, também por aqui cada vez mais escassos.

Pão, queijo, arroz… A lista de alimentos não ficou escrita, mas o resto faz parte da história tantas vezes repetida: quando chegou finalmente a paz e o médico pode regressar a França, não se esqueceu da generosidade do amigo e pagou-lhe com o bem mais precioso que tinha — uma lata com a receita dos “rebuçados peitorais” Dr. Bayard. Era esse o seu nome. É por isso que a marca ficou com um apelido francês, não podendo ser mais portuguesa.

“A receita que estava na lata tinha os ingredientes mas não as quantidades, por isso foi preciso fazer várias experiências”, diz Daniel Matias, neto do fundador e atualmente responsável pela comunicação da marca, que acaba de inaugurar uma loja online e de lançar um vídeo onde mostra que o comércio pode estar a modernizar-se mas “a tradição ainda é o que era”. É também Daniel quem conta que “a receita nunca foi alterada” e que ao longo do tempo tentaram localizar o Dr. Bayard e a família, mas nunca o encontraram.

Desde 1949, quando Álvaro Matias recebeu a lata e começou a sair de casa com um cesto de verga enfiado no braço para vender em farmácias e no cinema os rebuçados que fazia “numa panelinha ao lume”, muitas coisas podem ter mudado mas outras tantas continuam na mesma.

Em vez de serem embrulhados à mão numa cozinha, os rebuçados passaram a ser embrulhados por uma máquina a toda a velocidade — mil por minuto — e quase todo o processo se tornou mecanizado. Em vez de ser o casal Matias a fazer tudo, a Dr. Bayard tornou-se uma fábrica e passou a empregar 15 funcionários, mas continua a ser um negócio familiar.

“O meu pai diz, na brincadeira, que é quase como se isto continuasse a ser uma mercearia”, conta Daniel Matias. “As pessoas que aqui estão viram-me crescer e trabalham com os rebuçados há mais tempo do que eu tenho de vida.”

Com 31 anos, Daniel é o mais novo da linhagem que conduz os destinos da Dr. Bayard, ainda entregue aos homens da família. Depois de Álvaro Matias ter começado tudo numa pequena cozinha, nos anos 40, o seu filho José António tomou as rédeas do negócio e é agora o gerente da empresa enquanto o neto André, de 32 anos, trata das vendas.

Para quem vive e trabalha numa rua que cheira a mentol e a plantas medicinais todos os dias, claro que não há correntes de ar ou diferenças de temperatura que sejam uma ameaça. “Costumo dizer que sou como o Obélix e caí no caldeirão”, brinca Daniel Matias. “Nunca tenho tosse.”

Como são produzidos?

Antes de terem este aspecto, os rebuçados da Dr. Bayard passam por um longo processo. Veja as suas várias fases, e como era antigamente.

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Os ingredientes que compõem os rebuçados começam por ser derretidos e misturados nesta espécie de panela.

Daí passam para uma cozedora que coze a massa para ser amassada.

Enquanto ainda está quente, e maleável, a massa dos rebuçados é retirada para um tabuleiro, sendo então amassada manual e mecanicamente umas 13, 14 vezes, “até ficar rija”.

Nessa altura o que se vê é uma espécie de rebuçado mole e gigante.

Para começar a ganhar a forma final, a massa passa para uma máquina em forma de cone onde vai afunilando e ficando cada vez mais fininha até ser cortada já com o tamanho final dos rebuçados e carimbada com o logótipo da marca.

“Este é o tapete onde os rebuçados acontecem e de onde já saem duros”, resume Daniel Matias, neto do fundador.

Claro que ainda falta embrulhar.

Numa máquina, o papel é cortado à medida e envolvido nos rebuçados. É tudo muito rápido. Ao todo, três máquinas embrulham mil rebuçados por minuto.

Antes de serem fechados, os rebuçados ainda passam por um controlo de qualidade, sendo finalmente pesados para encher as diversas embalagens que existem à venda no mercado.

Antigamente as coisas eram um pouco diferentes

Natural de Almeida, Álvaro Matias veio para Lisboa trabalhar numa mercearia e recebeu a receita dos rebuçados de um médico francês que ajudou durante a Segunda Guerra. A receita vinha dentro de uma lata, lata essa que ainda hoje está fechada num cofre, a sete chaves.

A fábrica da Amadora é a terceira e maior que a marca já teve.

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