Arqueologia da Rua dos Correeiros

A primeira ocupação humana documentada no espaço hoje ocupado pelo Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC) remonta aos séculos V-IV aC, no contexto de uma acentuada expansão urbanística ligada aos contactos com povos comerciantes de origem oriental, nomeadamente sob influência político-económica de Cartago. A cidade cresce na direção do rio e seu esteiro, surgindo um bairro portuário e comercial. A este bairro pertenceria um conjunto de compartimentos retangulares com embasamento em pedra. Foi também identificado um forno cerâmico, do qual se conservava apenas a base da fornalha pavimentada a barro cozido de coloração vermelha e que se sobrepõe, parcialmente, às construções mais antigas, desativando-as.
Após um período de abandono urbanístico desta zona baixa da cidade, durante o qual se formou um depósito natural de areia, criando uma praia fluvial, a área do NARC foi utilizada como cemitério (de ritos mistos de inumação e incineração), pelos primeiros colonizadores romanos (séculos I aC-IdC).
No âmbito do acentuado crescimento urbanístico verificado em Olisipo a partir do final do século I aC, a área do NARC é, em grande parte da sua extensão, ocupada por um complexo industrial de salga e conserva de preparados piscícolas, do qual se identificaram trinta um tanques (cetárias), agrupados em sete pequenas unidades que terão laborado entre o século I e meados do século V da nossa era. Foi possível igualmente reconhecer algumas construções de apoio às fábricas e um poço.
Anexa à área industrial foi construída, talvez no século III, uma habitação dotada de termas. Destas foi apenas identificado o frigidarium, constituído por um átrio de forma quadrada, pavimentado com um mosaico policromo – o primeiro encontrado na cidade de Olisipo – e quatro tanques frios.
As áreas industriais e habitacionais confinariam a Sul, com a via de acesso a Olisipo por Oeste, elemento importante do urbanismo da cidade.
Após o século V, a área baixa da cidade terá tido uma nova regressão urbana, conservando-se contudo no NARC alguns contextos integráveis na fase tardo-antiga, incluindo uma sepultura isolada.
No período de dominação islâmica, a partir do final do século X, forma-se a ocidente da cidade muralhada um arrabalde, no qual se integram os contextos desta época identificados no NARC. Foram exumadas estruturas habitacionais e artesanais, nomeadamente um forno cerâmico.
Após a conquista cristã da cidade, em 1147, a Baixa de Lisboa é reurbanizada com mais intensidade a partir do século XIII. Na zona do NARC, a cidade mantém a matriz anterior, tendo sido identificados contextos habitacionais (muros, pavimentos e lixeiras).
O período designado como “pré-pombalino” (séculos XV a XVIII) é fortemente marcado pelo fenómeno da Expansão Ultramarina. Nesta fase, a baixa da cidade mantém o traçado medieval, mas verifica-se um conjunto de fenómenos ligados à sua transformação em centro político, económico e social urbano. Desta época, no NARC, escavaram-se vários troços de arruamentos, construções habitacionais (por vezes com pormenores arquitetónicos requintados (revestimentos azulejares, capitel, pavimentos cerâmicos), estruturas industrio-artesanais e poços.
O Terramoto de 1755 está claramente identificado no registo arqueológico do NARC, nos níveis de ruína e escombros e nos vestígios do grande incêndio subsequente. A reconstrução pombalina encontra-se igualmente bem inscrita no sítio, destacando-se, sob os alicerces dos edifícios, a estacaria em pinho verde. Já em fase pós-pombalina funcionou aqui uma forja e, eventualmente, uma padaria.

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A indústria de preparados de peixe constituía uma das actividades económicas centrais de Olisipo, tendo a sua produção cessado em época indeterminada, presumivelmente, entre o século V e o VI. Após o abandono dos complexos de produção de preparados de peixe do NARC, parece verificar‑se nesta zona da cidade alguma regressão urbana conservando‑se, no entanto, níveis de ocupação do espaço que fornecem espólio com cronologia tardo‑antiga. Apresentam‑se os dados de um contexto tardio identificado junto ao eixo viário ocidental à cidade, onde constam cerâmicas finas (sigillata africana, DSP gálica e sigillata foceense), ânforas e produções cerâmicas locais e regionais, que suscitam questões relacionadas com as ocupações tardias dos espaços periurbanos, com a caracterização dos contextos arqueológicos e com a dinâmica comercial urbana da segunda metade do século V e inícios do século VI.

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